Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
0 comentários

A Aflição de Xavier (revisado)


Xavier acordou cedo. 6h32 da manhã. Não era costume de Xavier acordar cedo: na verdade, a impressão que teve foi que já era a hora certa de despertar. Não foi. Naquele dia, só deveria acordar às 8h30 para fazer uma ligação e decidir entre dois compromissos: um indispensável. O outro, impulsivo. Seria a volta de sua insônia que manifestou-se durante seis meses antes pela dificuldade de dormir, depois por adiantar seu despertar, que controlou através de psicotrópicos e meditação -- e pasme, a segunda foi a que a fez curar!
Não. Na realidade, não existe maior perturbador do sono que a ansiedade. Na batalha entre os pensamentos persistentes e a necessidade do sono profundo nenhum dos dois vence: acaba-se por entrar em um sono supérfulo, no limiar da vigília, e raras vezes produz-se nesse período alguns sonhos -- via de regra, sonhos lúcidos. Basta desejar, ou não, e o cérebro se faz desperto novamente, em um total descompasso entre o relógio biológico e o tempo regido pelo movimento de rotação da Terra.
Uma transa. Um final de semana. Horas de sexo só interrompidas pela necessidade de água e alimento, coisa que só acontece quando há a perfeita comunhão dos corpos -- não aquela pregada pelo Padre, mas a que se sente quando o contato da pele e a pele faz sentir. Experiência rara que só passaria incólume pelo Mr. Spock. Já em Xavier brotou um sentimento tão intenso que parecia queimar seu corpo só ao lembrar da experiência. O tempo realmente é relativo: aquele final de semana durou uma vida.
1 comentários

O Outro e o Sabotador

Dizem que o outro é legal. Eu não o conheço, só ouvi falar. Quando acordo no dia seguinte ele já foi embora. Já o vi por foto, é parecido comigo. As feições são parecidas, ora ele parece mais velho que eu, ora mais novo. Às vezes o cara arranja briga, muitas delas o cara é rico. Minha conta bancária é quem paga a conta, mas dane-se. O outro não costuma pedir licença para usar meu cartão. Sabe minha senha e, se usassem de biometria para garantir acesso ao sueldo, creio que isso também não seria problema para ele.
Os outros conhecem o outro melhor que eu. Ou pensam que conhecem. Ninguém conhece o outro, creio, já que ele não existe. Se Freud estava certo em dividir-nos em ego, superego e id, eu chamaria o outro de superid. Um animal. Mantê-lo enjaulado deve deixá-lo furioso, e quanto mais furioso, mais estrago ele faz quando consegue escapar. A solução seria deixá-lo solto o tempo todo, então? Não, não sei, a solução seria usar o tal ego controlador de Freud para apaziguá-lo, mas vou ter que consultar o médico austríaco em uma sessão de mesa branca sobre o que fazer no caso do id ter dimensões de superid. Vai entender.
O outro às vezes faz amigos dentre os meus amigos, muitas outras vezes estabelece grandes relacionamentos em segundos que duram no máximo uma noite. Talvez ele enxergue uma profundidade que eu mesmo não enxergue nas coisas corriqueiras. Ou talvez fechemos nossos olhos a essa profundidade e deixemos passar grandes oportunidades de ser feliz. O outro deve ser feliz por esses breves momentos. Não sei. Nunca conversei com ele. Certamente ele dissertaria por horas e horas acerca da felicidade real se eu o indagasse sobre isso e eu encontraria certa familiaridade em suas palavras. Ou não, pode ser que se eu o fizesse essa pergunta ele simplesmente me desse uma cerveja e me dissesse "tome isso e não pense naquilo que não se pode racionalizar, mas deve-se sentir". O outro, penso que por sua natureza, prioriza a praxis à razão, o sentimento à elocubração, o impulso ao cálculo. Uma conversa com o outro poderia ser perigosa.
0 comentários

Balé de Marx e a Mulher Linda no Ônibus

Não posso dizer que não me canso de viver as experiências bizarras que vivo em São Paulo, pois que são cansativas elas são. Mas não deixo de achar intrigante as coisas que observo aqui e que certamente não veria nas pacatas cidades que conheci em Minas ou até mesmo em outros centros urbanos daqui ou do continente.
0 comentários

Antes de Entrar no Elevador

Esperar o elevador no prédio aqui da avenida São João onde trabalho assemelha-se a aguardar a lotação no ponto de ônibus na zona norte de domingo. Faça chuva ou faça sol, é uma demora sem fim. Às vezes, quando há paciência , dá tempo de pensar um pouco na vida. Quando falta, recorro ao celular, sms ou twitter, visto que ao contrário dos ambientes abertos, graças ao governador de São Paulo já não é permitido fumar enquanto se espera.
Não é via de regra, mas de vez em quando acontecem coisas peculiares, tanto na espera do ônibus, quanto do elevador. Outro dia olhei para o lado e vi um senhor franzino, de quase uns 70 anos, que tinha certeza de ter visto em uma animada conversa na Avenida Paulista algumas semanas antes quando fui entregar um documento no prédio da Superintendência. Chamou-me a atenção o fato de que ele usava uma camisa branca listrada e chapéu coco preto, o que por um instante lembrou-me Laranja Mecânica.
Cerca de oito minutos depois, já que o elevador não aparecia, resolvi puxar conversa:
-- Bom dia! Que demora hein!
-- Sempre. Tudo demora. A vida é um “troço” demorado – e abriu um sorriso.
Achei um pouco hiperbólico, mas continuei:
-- Demoraria menos, não fosse o tempo que perdêssemos esperando elevador, ônibus, trem, metrô...
-- Antigamente perdíamos andando, subindo escadas...
-- Exercitando os músculos – retruquei.
-- Hoje em dia lemos – ele respondeu, desafiador.
-- Não. Hoje ficam escutando funk. Os livros estão em baixa.
-- Gente burra sempre existiu, não é culpa do elevador – ele deu o veredito.
0 comentários

Alvorecer Cinza

Chegar às sete da manhã no banco é engraçado. Trabalho num prédio com cerca de 3 ou 4 mil funcionários, mas imagino que nem 20% destes estejam aqui quando entro no elevador a essa hora. Numa tendência contrária ao tradicional mau humor paulistano, a essa hora, todas as "topadas" no elevador e nas escadas resultam em tímidos ou efusivos "bom dias" ou cumprimentos dos mais diversos. Eu, mesmo a contragosto, respeito a tradição. Se chego às 11, não o faço: subo apressado, dou "oi" só para as ascensoristas e um "bom dia" global para quem ouvir quando chego no meu setor.
Estava agora fumando um cigarro na varandinha do 11o. andar, olhando para a Av. São João, da vista privilegiada que temos daqui. Não troco São Paulo por nenhuma outra cidade que conheci, é verdade. Mas essa coisa toda parece um grande teatro... Quantos filósofos, historiadores, cientistas sociais, físicos, matemáticos, estão travestidos de bancários? Já vi por aqui até veterinários, odontologistas, médicos... Gente que parece gritar -- em silêncio -- por detrás de suas baias (quer nome melhor para o espaço de trabalho?), sentindo-se enforcado por suas gravatas, criando para si as mais diversas desculpas para aceitar esse "personagem" e as mais diversas humilhações inerentes a ele (eu incluso no grupo).
Alguns fazem faculdade para ser personagens. Hoje as universidades já preparam para isso. Outros fogem achando que negando tudo conseguirão a libertação (do sânscrito "moksha"), e criam comunidades alternativas, baboseiras new age, misturebas envolvendo toques de espiritismo com hinduísmo, budismo, um pouquinho de karatê e grego. É só adicionar "tantra" no nome, cobrar mais que 5 mil, publicar um anúncio na revista Nova e pronto: livram a consciência dos personagens do parágrafo anterior, fazendo com que eles se tornem personagens desse parágrafo. É uma troca justa, eles pagaram afinal.
Mas não. Nem a gravata apertada e nem a baboseira new age me satisfaz. Prefiro a gravata com laço largo e o Hatha Yoga. Ainda assim, sinto que existe algo que se desespera quando coloca esse crachá e tem de se fingir de cidadão do mundo corporativo, o que nunca vai deixar de ser fingimento porque, afinal, nesse mundo ninguém tem a cidadania, só o visto provisório: se cansar das aparências -- ou se alguém se cansar da sua, seu passe é revogado. Simples assim.
Apenas mais um desabafo, direto da baia. Agora é hora de calar a boca e voltar a trabalhar.
1 comentários

Velhos Conhecidos

Destoando um pouco dos tradicionais "posts" do blog, relato-lhes uma breve e verossímil crônica que pensei não mais ser possível passar-se em uma metrópole como São Paulo. Talvez mais possível em ruelas de Ouro Preto, mas com detalhes faltantes que a tornariam inviável naquele cenário.
Passou-se na noite de ontem. O metrô fecha à meia noite e pouquinho, mas garante a baldeação -- sabe-se lá a explicação desse vocábulo -- entre as linhas só até essa hora. Os bancos fecham às dez. Os horários por si já evidenciam que o trabalhador dependente de caixa eletrônico e transporte público, aquele que recebe salário em conta e levanta pontualmente para trabalhar, deve ter hora para chegar em casa, sem atrasar-se. Para a diversão, reserva-se o final de semana, quando o metrô extendeu o horário de funcionamento até à uma da matina. Confirmam-se portanto as teses marxistas: depois da labuta, cama. Diversão, só de final de semana. Eu estava, portanto, contrariando esta regula máxima.
Citei o banco e o metrô porquê os ponteiros marcavam meia noite em ponto, meus bolsos continham uma nota de dois reais, uma moeda de vinte e cinco centavos e outra de cinco e um bilhete único com sessenta centavos, leia-se, inútil. As bilheterias do metrô, públicas, ficam abertas depois da meia noite. As que recarregam o bilhete único, privadas -- tais quais as companhias energéticas, telefônicas e vasos sanitários -- cerram-se invariavelmente à meia noite. Voltei, pensando ter encontrado um amigo de relance para pedir-lhe dez centavos emprestados e comprar o raio do bilhete do metrô, que custa dez centavos a mais que o ônibus, R$2,40.
O tal do amigo, que me cumprimentara alguns segundos antes, desapareceu. Quando eu ia subindo as escadas rolantes, já com o celular na mão pensando em acionar algum conhecido para pedir um leito ou, em último caso, dormir no apartamento recém-pintado em meio aos pincéis de tinta e restos de jornais espalhados pela casa, um rosto conhecido me cumprimenta, chamando pelo meu nome. Não me lembro bem, mas tinha alguma convicção de que o conhecia.
Relato-lhe que estava preso na Estação República, por uma incompatibilidade de horários e cálculos. Ele se oferece de pronto em pagar minha passagem. Extremamente grato, começo a conversar com ele, e pegamos o mesmo trem: eu iria descer na Sé, ele na Guilhermina-Esperança. Forço a memória, mas o máximo que consigo lembrar é que ele tem alguma relação com o banco. Gerente de Contas conhece muita gente, mas é mais conhecido que conhece alguém.
A certa altura da conversa, quando eu estava quase a desembarcar, ele me pergunta:
-- Você se lembra de mim?
Devo ter enrubecido, a esta altura. Ele percebeu. Tirou um bolo de cartões de visita do bolso, selecionou um, e me entregou.
-- Sou o João, gerente do Ponto Chic do Paisandú.
O mesmo gerente da mesma lanchonete que fui umas oito vezes, que sempre foi cordial comigo mas nunca pensei que se recordasse de mim. Chamou-me pelo meu nome, pagou minha passagem, lembrou-se de onde eu trabalhava e fez votos de que eu chegasse bem em casa. Que posso eu dizer? Mesmo não sendo assim tão religioso, tão bom cristão, tão assíduo frequentador de missas e igrejas... Que Deus lhe pague!
2 comentários

mula::sem::cabeça

As cidades do interior de Minas Gerais tem algo de bastante curioso. Pode ser que eu tenha viajado pouco pelo interior de São Paulo, mas em Minas se encontram cidadezinhas de 5 mil ou 10 mil habitantes, ouvi dizer até que Minas é o Estado que mais tem municípios. Qual é mesmo o critério que leva um povoado a ser considerado município?
Tenho blog há muito tempo (claro que não é esse), desde a época de cursinho, com pretensões – eis aí um vocábulo bem catado para designar o porquê de eu mesmo ter um blog – Machadianas. Explico: na época em que eu freqüentava cursinhos, um dos professores de literatura me disse que um dos segredos para escrever bem era escrever sempre. Por isso, o citado acima tinha um diário, onde escrevia desde a menor baboseira até a maior sacada. Duvido que ele escrevesse baboseira. Já eu mesmo, receio que nunca chegue nas maiores sacadas.
De qualquer forma, morando agora em uma casa de família – ora bolas, é a minha família – escrevendo sobre a Mula-Sem-Cabeça para um portal de Educação, lembrei-me da época das minhas viagens para Minas Gerais. Isso porque não consigo imaginar uma mula que solta chispas de fogo pelas narinas e pela boca -- é o que chamam "paradoxo do absurdo" -- correndo por ruelas ou por colinas galopando e aterrorizando os moradores da Avenida Ipiranga ou do Edifício Copan, onde eu vivia. No máximo, seria perseguida por viaturas do Tático ou da Rota, e não tardaria a ser montada por um bêbado saído da Love Story, o que mataria séculos e séculos de um rico e valioso imaginário popular.
1 comentários

o grito

Curta crônica de uma paixão natimorta

Hoje tive um sonho...
Nove e meia da noite eu estava sentado em uma das muretas do metrô República. Marquei com ela as nove -- mas quem se importa? Encontrei-a linda, tão linda como nunca lembrava. Também, não tinha muito como lembrar, só a tinha visto uma única vez.
Devo meu tom estupefato aos meus tolos sentimentos. Era para ser só mais uma, não para ser única. Dispensaria a ela o tratamento padrão: bar, balada e mi casa. O ciclo de uma noite "perfeita" e bem resolvida padrão. Padrão porque se repete, perfeita porque sai como o planejado.
A noite é como um cavalo, mas você nunca sabe quem ele é. Às vezes, dócil, caminha com obediência pelas estradas que guiamos, só parando nos pastos que permitimos. Outras, completamente selvagem, arranca sua sela com furor e nos joga ao chão, fazendo acompanharem-no a pé ou tentando recuperar a montaria. Assim, como a segunda, foi aquela noite.
 
;