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O perigo do fundamentalismo religioso no Brasil


Em um momento onde urge a discussão sobre a possibilidade do vácuo dos governos derrubados no Oriente Médio ser preenchido por uma ditadura religiosa fundamentalista, tal qual foi no Afeganistão e Paquistão, desvio um pouco esse debate para a possibilidade e consequências do fundamentalismo religioso no Brasil, baseado na ascenção e infiltração na política dos neoprotestantes, vulgo
evangélicos em suas várias denominações, bem como o controle de diversos meios de comunicação e empresas por parte das igrejas evangélicas. Para iniciar, é de suma importância conceituar o fundamentalismo:

Movimento religioso e conservador, nascido entre os protestantes dos E.U.A. no início do século, que enfatiza a interpretação literal da Bíblia como fundamental à vida e à doutrina cristãs [Embora militante, não se trata de movimento unificado, e acaba denominando diferentes tendências protestantes do sXX.] (Houaiss)

Vê-se que o termo está associado à interpretação literal da Bíblia, no início do século XX. Quando, por livre extensão de sentido, associamos este termo a política e à ditadura, estamos falando de autoritarismo:
Em sentido generalíssimo, fala-se de regimes autoritários quando se quer designar toda a classe de regimes antidemocráticos. [...] A oposição política é suprimida ou obstruída [bem como o pluralismo partidário. [...] (Norberto Bobbio, Nicola Matteuci e Gianfranco Pasquino - Dicionário de Política)

No Islã, dois movimentos políticos disputam a forma de governo e a moral que deve ser seguida: os sunitas (que seguem a "Suna", livro que define questões não muito claras no Corão), que reconhecem um líder religioso eleito pela população e representam 80% da comunidade islâmica do mundo, e os xiitas, que seguem à risca o Corão e defendem que o líder político e religioso deve ser descendente direto de Maomé. É importante lembrar que o islamismo é a religião que mais cresce no mundo.
Ao mesmo tempo, no Brasil, estima-se que as correntes neoprotestantes (que inclui os neopentecostais, ambos chamados de evangélicos) são as que mais arrebatam fiéis anualmente. Num país com quase 200 milhões de habitantes, diz-se que 2 milhões de pessoas são convertidas à essa fé ano a cada ano. Proporcionalmente, podemos dizer que o neoprotestantismo está para o Brasil tal o Islamismo está para o mundo. Discuto, portanto, as semelhanças entre o fundamentalismo religioso no Brasil e no Oriente Médio, mesmo que esteja falando de religiões diferentes.
Interessante ler o artigo do Cristiano postado nesse blog, O Fim do Mundo Já Começou, para ter alguns exemplos da propagação do fundamentalismo neoprotestante pelo mundo. No Brasil, podemos dar o exemplo da Folha Universal, "Um Jornal a serviço de Deus" (que Deus?), que fala sobre política e propaga a moral ditada pela igreja de Macedo, bem como a Rede Record, uma das maiores emissoras do Brasil e controlada pela IURD, que recentemente ampliou seu departamento jornalístico e frequentemente omite notícias que vão de encontro com a fé de seus controladores. Além disso, há a compra de extensos horários das televisões de menor porte para divulgar programas evangélicos, e sobretudo, temos

o maior símbolo da influência política neoprotestante no Brasil: a bancada evangélica no Congresso. O poder da manipulação dos líderes religiosos evangélicos é tal, que se um presidente proclama sua fé agnóstica ou o ateísmo (como Fernando Henrique, Lula e Dilma), perde o apoio dos eleitores evangélicos e, sem ele, dificilmente conseguiria se eleger. Dilma, por exemplo, prometeu que não partiriam dela projetos de lei à favor do aborto, do casamento homossexual, e outras que ofendessem os preceitos literais da Bíblia seguidos por essa religião.
À partir disso, podemos dizer sim que podemos temer que um regime autoritário religioso pode (e já está) se estabelecendo no Brasil, mesmo de forma democrática. Também não podemos dizer que o Estado brasileiro é laico, uma vez que já esta seguindo os preceitos defendidos pelos neopentecostais, seja por pressão popular (oriunda da alienação), seja pelos congressistas. A linha que separa esse regime "democrático" influenciado por uma única corrente religiosa do autoritarismo é muito tênue, e pode romper-se a qualquer momento.
Defendo que devemos ir contra a religião? Não. Repito o que sempre digo em outras postagens: concordo com a Constituição no que diz respeito à livre manifestação de pensamento. O pensamento, todavia, é plural, e assim deve ser respeitado, tal qual a liberdade de escolha. Nesse sentido, o Estado brasileiro deveria ser completamente laico. Não acho que os congressistas não devem ter suas próprias religiões: acho que eles deveriam defender a liberdade de crença, como estabelecido pela Constituição à qual estão submetidos. Caso contrário, continuaremos caminhando rumo ao autoritarismo, e em passos largos. É a volta da ditadura, mesmo que não seja militar. Contra isso, sim, devemos lutar.
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O fim do mundo já começou

Um grupo cristão denominado Family Radio anunciou que o mundo acabará este ano, mais precisamente no dia 21 de Maio (http://worldwide.familyradio.org/pt/). A argumentação pautada na lógica dos preceitos divinos é baseada na interpretação literal da bíblia sagrada. O arrebatamento estará em andamento até Outubro, quando os eleitos serão escolhidos. Como não poderia ser diferente, afirmações fantásticas sem quaisquer evidências racionais são feitas. Até mesmo a data do dilúvio, que mencionam ter ocorrido em 4990 a.C., é afirmada como uma verdade absoluta. Todavia, como explicarei no texto, o inicio do arrebatamento na realidade já se iniciou há muito tempo.

Tenho presenciado o crescimento de congregações pentecostais que se pautam na doutrina da prosperidade, uma espécie de chamariz para os desesperados e angustiados. Um senhor pouco distinto, de origem humilde, semi-analfabeto, negro, ex-viciado em drogas, que prega a cura de doenças incuráveis como câncer e AIDS é a maior sensação televisiva no atual fenômeno da conversão das massas. Com um terno impecável, palavras bem dosadas, um certo carisma e evidente inteligência, prega com um chapéu de cowboy todos os dias na tv. Um amigo evangélico uma vez me disse “Ele tem a unção de Deus”. Com mais de quatro milhões de seguidores conseguidos em pouco mais de dez anos de atividade, acaba por demonstrar toda a fragilidade e miséria de um povo que se contenta com qualquer show de calouros da vida real.

Em outra emissora um sujeito simpático e sorridente arranca "caroços" de enfermos e pede aplausos a Jesus. Carismático ao extremo, chega a cativar pela eloquência das palavras e pela oratória na pregação. Afirma com certa frequência que “Deus chamou em seu coração” quando decidiu abandonar o curso de medicina na Rússia para se dedicar aos mais necessitados. Em vez de se ater à ciência do corpo, agora busca suplantar toda a dor dos flagelos sociais através da palavra do Salvador. Certa vez, frequentando a referida igreja, fui interpelado com os demais presentes a contribuir com o ministério. Aquele que doava dinheiro para um saco vermelho que rodava o salão era abençoado pelo pregador. Naturalmente, me senti queimando no inferno pois não tinha um tostão no bolso.

Nas noites de insônia a diversão é garantida. O senhor cowboy não tem boa dicção e o missionário dos aflitos canta muito mal. A única coisa que pode me fazer cair no sono é a pregação do pastor dos relógios de ouro. Ele sim, é um "showman" do besteirol e das coisas mais ilógicas da televisão. É hábil, consegue atrair multidões pela boa oratória mas falha grotescamente no encadeamento lógico dos argumentos. Critica abertamente homossexuais, condena ao inferno quem não tem a prática do dízimo, defende o criacionismo e afirma que ateu não tem vez no reino dos céus. 

A Santa Sé tem sido mais discreta, mas não menos perversa. No ano de 2008 o então presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva (uma espécie de Tiririca do circo da vida), selou um acordo sombrio com o Vaticano. Sem cobertura da mídia, no mais absoluto silêncio democrático, este acordo inconstitucional quebra a laicidade do estado brasileiro ao instituir o ensino religioso, obviamente católico, em todas as escolas da rede pública de ensino. A liberdade de manifestação religiosa que vigora desde 1891 está com os dias contados. É uma guerra religiosa onde o prêmio é a conquista do maior número possível de miseráveis. 

Em países como a França, Suécia e Japão o percentual dos que se declaram como não religiosos é maior que 50%, enquanto que no Brasil este índice é de aproximadamente 2%. A pobreza de um povo subjulgado pelas mazelas sociais é o alimento preferido das religiões. A presença maciça das igrejas se faz presente nos países mais subdesenvolvidos. O arrebatamento ao qual nos referimos portanto já está em andamento: o dízimo dos miseráveis é o preço que se paga para o arrebatamento cada vez mais rápido dos fiéis em direção à cova da ignorância.
 
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