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Campanha:2:Pasárgada

E, a propósito, estamos cá de novo diante de um processo eleitoral. Viciado, como sempre, com os candidatos que encabeçam a pesquisa -- e provavelmente vão levar a faixa da vitória -- fingindo que tem grandes diferenças políticas entre si. El pueblo, de boa memória e vastíssima cultura, consegue discernir que qualquer desses candidatos eleitos vai continuar com as maravilhas que podemos ver no dia-a-dia da nossa cidade, onde se erradicaram os moradores de rua dando-lhes emprego, legalizaram os ambulantes sem tributar-lhes abusivamente, não existe tráfico de drogas e a violência anda tão baixa que a polícia quase não precisa sair de seus bunkers.

Que bom que estamos nesse cenário e, assim, qualquer um dos candidatos que encabeçam as pesquisas é uma boa opção. Afinal de contas, se não estivéssemos, poderia ser necessário investir na educação para criar pessoas mais conscientes, que no mínimo não tivessem perdido o poder de se indignar se fossem roubados, tanto em um assalto de rua, quanto pelos seus governantes. Talvez fosse necessário também encarar de frente os problemas de segurança, sem demagogia e sem desviar a função original da Guarda Municipal. E é claro, por sorte nossos hospitais públicos funcionam muito bem: imagina o caos que seria se as verbas destinadas à saúde fossem reduzidas a tal ponto que o Estado não conseguisse atender às demandas do povo e os eleitores terem como opção ou pagar um plano de saúde -- aqueles que podem fazê-lo -- ou morrer esperando numa fila de hospital?
Eu, incoerente que sou, mesmo diante de tantas maravilhas, declaro meu voto em alguém que também ficaria indignado se o cenário não fosse esse, e, mais que isso, estaria na luta como vereador ou não contra uma hipotética conjuntura caótica. Um cara que não está no topo das pesquisas, porque afinal, a grande maioria prefere votar no Sergio Mallandro ou no Lacraia, já que não precisam de ninguém para defender seus direitos na cidade maravilhosa em que vivemos, então, que a Câmara vire um palco com artistas de fato.
Se as coisas ficarem ruins, se um dia deixarmos de viver nesse plano ideal, eu já estarei respaldado: dia 05/10, vou votar no Dirceu Travesso, 16016, para vereador.

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Hoje dei uma rápida espiada nos jornais. O Brasil marcou 3x0 no Chile. Meu Coringão segue rebaixado. A Marta, segundo o Datafolha, está com 40% das intenções de voto, segue com o sobrenome do ex-marido e a minha candidata a prefeita está com 3%. Alguns slides mais para frente, uma garota sem nome se inscreve para a Fuvest, o vestibular mais concorrido do país.
Exceto o fato do meu Corinthians, imaginei-me olhando para o mesmo portal, há exatos quatro anos. Acho que veria as mesmas notícias: o povo votando nos mesmos candidatos que lhe empurram o nabo diário, que não é para ser engolido pela boca, o Governo tentando desviar a atenção do povo para os escândalos que nos cercam com o panis et circencis, técnica antiga, usada desde os romanos, mas agora como matar gente pelos leões é não passaria pela câmara -- será?, usam o futebol, e os pobres vestibulandos já são condenados a níveis de estresse que antigamente só aqueles que trabalhavam há 20 anos em fábricas, bancos ou Hospitais chegavam -- Freud que o diga.

E porquê raios eu voto na candidata dos 3%, voto no vereador que estava comigo nas ruas, lutando e sendo preso ilegalmente pela polícia, lutando pelo direito dos trabalhadores bancários e contra o uso da máquina do sindicato pelo PT como braço do governo e dos interesses do mesmo, porquê nabos eu continuo torcendo pelo time da segunda divisão, porquê é que eu não larguei tudo e não mudei para Buenos Aires -- ignorando o lado financeiro, as aspirações dos meus pais e as inacabadas faculdades de Filosofia e de Jornalismo... Por que?
Há dois anos eu teria uma resposta pronta para isso e diria que acredito que a luta muda a vida, que não podemos cansar e desistir. Hoje já não sei se penso o mesmo. De qualquer forma, lembro-me de ter mandado há uns 10 anos atrás uma carta para Barbara Gância e ela ter me respondido que joga na loteria há tempos e nunca ganhou, mas continua jogando. Eu nunca jogo. Terça passada saí do metrô, entrei numa loteria e joguei na mega-sena. Por um número não acertei o menor prêmio.
É chato olhar as notícias de hoje e ver que elas continuam velhas. E quando se produzem notícias novas, como as de Dantas, elas simplesmente desaparecem. Ou como as da Abin -- puf, desaparecem, a cúpula sumiu, no seu lugar, um funcionário do Dantas, que como é desaparecido, esse também o é.

Estava é com medo de ver essas pesquisas. Medo de chegar a esta velha opinião formada sobre tudo. Medo de, como me disse ontem Geraldo Anhaia Mello, grande amigo (e ídolo) meu, que promoveu a exibição do documentário "Muito Além do Cidadão Kane", além de transformá-lo em um livro, medo de virar velho antes do tempo.
Agora já vi. Mas segundo Anhaia Mello, um homem justo, tenho duas opções, todos os dias, ao acordar. Amanhã... Não vi =). Amanhã vou acordar cedo e panfletar pelo meu candidato a vereador, na porta de banco. Afinal, talvez a luta mude algo. Mas sem ler jornal.

(tinha citado 2x0, segundo o UOL. Mas a Hellen me corrigiu, foi 3x0. Acredito mais nela que no UOL. Descartes me ensinou a ser Epistemológico, afinal =) ).
 
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