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Jair Bolsonaro: Muito além do preconceito



Já está mais que conhecida a história de Jair Bolsonaro no CQC: conforme vê-se no vídeo acima (pré requisito para entender bem minhas reflexões tecidas a seguir), o Deputado do PP do Rio expressou seu apoio à ditadura, chamou a Dilma de bandida (bem, o que concordo, mas não pelos mesmos motivos que ele), e disse que a homossexualidade é produto de maus costumes e de "pais ausentes" (se [meu filho] tiver uma boa educação e um pai presente, então não corro esse risco [da homossexualidade]).
Dentre outras coisas, Bolsonaro expressou a opinião (comum ao militarismo) de que o Brasil só pode ser respeitado se tiver o poder de intimidar, e que FHC deveria ser fuzilado por ter vendido a Vale do Rio Doce, chamando-o de traidor da nação. Vamos explorar melhor esse argumento... O nacionalismo, regime do qual Hittler era adepto, "em seu sentido mais abrangente [...] designa a [...] de determinado grupo político, o Estado nacional, que se sobrepõe as ideologias dos partidos, absorvendo-as em perspectiva" (Dicionário de Política, Noberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino).

Porém, justamente com esta significação, outra existe, mais restrita, que evidencia uma radicalização das idéias de unidade e independência da nação e é aplicada a um movimento político, [...] que se julga o único e fiel intérprete do princípio nacional e o defensor exclusivo dos interesses nacionais.

[Estruturou-se] aos poucos sobre os escombros da sociedade feudal, que definiu sua individualidade apresentando-se a si próprio como um poder independente no contexto dos Estados e como um poder superiore com relação aos outros centros de poder -- em primeiro lugar a Igreja -- que atuavam no interior do Estado. É bom salientar que, nos seus inícios, o Estado soberano tinha estrutura autoritária [...]. (Idem)
De uma idéia que nasceu na Revolução Francesa sob a bandeira da fraternidade e igualdade entre as nações, além da soberania do povo, surgiu a deturpação do princípio da igualdade quando passou-se a privilegiar a a fraternidade dentro na nação sobre a fraternidade de todos os povos. Mais que isso: o autoritarismo enquanto forma (ou pretexto) de manter a ordem e a igualdade de direitos (à propriedade, aos lucros, dentre outros). Desde a revolução francesa foi adotada a guerra como forma de exportar a liberdade e fraternidade para outras nações. Atualmente, um exemplo claro dessa ideologia é a postura dos Estados Unidos face outras nações: o messias da democracia mete bala naqueles que não aderirem ao seu regime "igualitário" e de poder "do povo".
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Bethânia e a galinha dos ovos de ouro - Nossa subjetividade à mercê do capital


Há pelo menos dois pontos de vista sobre Maria Bethânia e a sua galinha dos ovos de ouro de 1,3 milhão de reais. O primeiro seria aquele composto por burocratas (avessos à cultura), ressentidos e alguns poucos contrários a qualquer tipo de lei de renúncia fiscal,  seria o de considerar um absurdo a intérprete arrecadar tal quantia para um blog - dizem os ressentidos e burocratas - de poesia - dizem os burocratas. O segundo ponto de vista é daquele que acredita que essa quantia não representa e nem deveria ter feito tanto barulho, já que além de ser um incentivo necessário à nossa cultura, o dinheiro ainda não foi "entregue" apenas "encomendado", sendo que os produtores de Bethânia foram permitidos captar tal verba através da uma lei de renúncia fiscal¹.

Não posso dizer que discordo plenamente de ambas as opiniões. É óbvio que o Brasil necessita sim, de uma cultura desenvolvida e para isso precisa de meios para executá-la. E, sim, me agrada a ideia do blog de Bethânia.

Contudo quando se fala de dinheiro público - sim, DINHEIRO PÚBLICO! - seja para qual meio for, não podemos simplesmente nos esquivar  por ser uma artista importante que contribui para nosso enrijecimento  cultural.

Ora, vamos lá. A lei em questão, em poucas palavras, não passa de desvio de dinheiro público para o setor privado. Já que esse dinheiro teria de ser repassado primeiramente ao governo, para então ser destinado à cultura, educação, etc. E ao contrário disso, o que acontece é que fica a critério de um diretor de marketing, ou coisa que o valha, decidir aonde é importante e rentável para sua empresa injetar aquele dinheiro - aí, outro ponto, já que além da renúncia fiscal, a empresa tem seu nome divulgado nas obras de seu interesse(propaganda), sem contar os trambiques de renunciar 1 milhão, injetar 300mil  e ficar com o resto.

Dessa forma, deveríamos usar toda essa energia critica atual e repensar como são feitos shows  de Ivete Sangalo, Roberto Carlos, ou espetáculos como Cirque de Soleil - e centenas de outros exemplos inesgotáveis.

Que é triste ver uma artista consagrada tendo a possibilidade - que acaba por ser efetiva, dados os fatos de "sucesso" da intérprete -  de captar tanto dinheiro em detrimento - sim, em detrimento - de outro artistas e  novos coletivos de trabalhadores de cultura, sim, é deprimente.

Que lamentável ver que ainda vivemos num mundo que frases como essa sejam tão facilmente objetivadas e aceitas: "... Não vivemos de palavras bonitas, mas sim de dinheiro, o Brasil precisa é de educação financeira"² - não que em nosso sistema econômico não seja este o carro-chefe, mas a frase como fim não deve contemplar a ninguém.

Mas o que mais entristece é que num sistema fadado às ruínas do apocalipse, anunciado há muito por um messias chamado dinheiro, nós trabalhadores, sejam da cultura, da arte ou não, e sobretudo estes como Maria Bethânia, que são como espécie de nossos "mestres", aceitem ainda que nossa subjetividade seja condicionada por aqueles, que por toda sua vida, se dedicaram a nos enfiar goela abaixo uma realidade sem nuances, desromantizada, mórbida ou simplesmente controlada.

¹ Lei Rouanet http://www.cultura.gov.br/site/categoria/apoio-a-projetos/mecanismos-de-apoio-do-minc/lei-rouanet-mecanismos-de-apoio-do-minc-apoio-a-projetos/

²Comentário do vídeo de Daniel Fraga em http://www.youtube.com/watch?v=zIKu3HZs_Qs
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Tsunami no Japão, assassinato no Brasil

Foto *

No dia 12 de Março desse ano, a Terra tremeu. E muito: quase 9 graus na escala Richter, o suficiente para ter deslocado a Terra em 10 centímetros de seu eixo de rotação. O Japão foi o país mais afetado pela tragédia, já que está localizado na região que concentra a maior atividade vulcânica e abalos sísmicos do planeta. 
Podemos dizer que o mundo é dividido em 10 placas tectônicas principais. O arquipélago onde está o Japão fica entre as placas do Pacífico, Eurasiana e Filipina, zona de constante movimento. Não à toa, é o país mais preparado para lidar com esse tipo de desastre. Tem barreiras de contenção marítimas, prédios especialmente construídos para não sucumbir a terremotos e alarme contra desastres. Mesmo esse preparo não foi suficiente para evitar mais de 5.000 mortes decorrentes desse tremor (e o consequente Tsunami que o sucedeu).
Literalmente do outro lado do mundo, está o Brasil. No meio da placa Sul-Americana, o país não tem mais nenhum vulcão ativo. As possibilidades de um terremoto são remotas, quase nulas, quiçá um tsunami. Não há como atribuir ao homem a sorte de termos nosso país localizado numa zona distante de acidentes sísmicos, mas há sim como lembrar que o homem -- e só ele -- é o culpado pelas mortes evitáveis em tragédias de muito menor escalão que a ocorrida no Japão.
No mês de Janeiro desse ano, choveu. E muito: o equivalente a 18 chuvas de verão seguidamente num período de 4 horas na região serrana do Rio de Janeiro, de acordo com o estudo do Coope/UFRJ. E falando só do desastre dessa região no início desse ano, foram computados quase 1.000 mortos e 707 desaparecidos (de acordo com a listagem oficial de 17/03 do Ministério Público do Rio de Janeiro). Somando mortos e desaparecidos até o momento de ambas as tragédias, as chuvas no Rio de Janeiro provocaram quase 50% do número de vítimas que um tsunami e um dos maiores terremotos da história da humanidade provocaram no Japão.
Foto: Portal R7
Mas o cerne dessa discussão não é o número de vítimas: são as mortes que poderiam e que foram evitadas. O governo japonês sabe que seu país é vulnerável à abalos sísmicos e investe na prevenção de tragédias que possam ocorrer por conta disso. O governo brasileiro sabe que algumas regiões do Brasil são extremamente vulneráveis à chuva e outras intempéries e quais sãos as medidas que adotam efetivamente para prevenir tragédias decorrentes dessas fragilidades? Nós vimos no começo do ano: nenhuma.
Temos de ser solidários às vítimas japonesas, temos que ser solidários às vítimas fluminenses, temos de ser solidários com todos aqueles que sofrem por conta de desastres. Só não podemos ser solidários com a omissão do governo face a tragédias iminentes. Já falta comida, falta salário, faltam empregos dignos, falta educação, e contra isso o governo só toma medidas paliativas. Na iminência de faltar vidas, não investir em prevenção é assassinato.
O mesmo estudo que citei alguns parágrafos acima disse que provavelmente não teremos chuvas como as do início desse ano no Rio de Janeiro pelos próximos 500 anos. Espero que não levemos tanto tempo para lutarmos contra o descaso e fazer com que o governo assuma a responsabilidade que lhe é imputada tanto pelas leis, quanto pelo nosso voto. Nós não podemos atentar contra a vida alheia, é crime. Por que é que o governo pode atentar contra a nossa?

*Fonte da Foto: http://feitoagora.com/tsunami-japao-2011/ - fotógrafo não citado
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Direto do Egito: Revolução precisa avançar!

A revolução no Egito foi vitoriosa ao derrubar Mubarak, mas ainda existe muito a avançar. Nem todas as reivindicações do povo foram atendidas: em especial, a queda de todos os líderes ligados ao antigo ditador e a libertação dos presos políticos. Além de novas prisões e torturas ocorrendo no país, o governo de transição manteve no poder Mohamed Hussein Tantawi, ex-general de Mubarak, reconhecido pelo próprio governo norte-americano como um dirigente conservador.
O povo está em festa até agora, mas existe uma forte pressão, tanto internacional, como das forças armadas, para limitar a revolução. "O povo trabalhador está alerta. A bruxa ainda está solta, vamos ver", diz Fábio Bosco, enviado da LIT-QI ao Egito, com exclusividade para este blog. "Já houve um primeiro triunfo, agora se disputa se a revolução para ou avança, isso não está claro. O governo, o exército, o imperialismo [e] os partidos burgueses de oposição querem parar o processo", complementa.
O processo que Bosco menciona é justamente a onda revolucionária que se alastra pelo Oriente Médio, podendo inclusive influenciar países da Europa onde já há a revolta contra as reformas previdenciárias e outras medidas governamentais que afetam negativamente os trabalhadores. "[Há uma] pressão total para brecar a revolução. [Vem] dinheiro dos EEUU e Europa para tentar corromper o novo sindicalismo. É um terror", resume.
Apesar da conjuntura indefinida quanto aos rumos que a revolução deve tomar, Fábio diz que é difícil que os fundamentalistas assumam o governo do Egito, como aconteceu no Afeganistão no passado. "Os fundamentalistas aqui são muito fracos. A irmandade muçulmana é neoliberal, e a ala que prevalece não é fundamentalista", explica. "A massa é contra o imperialismo e contra Israel, mas os partidos burgueses, entre os quais a irmandade, querem só uma convivência pacífica".
Face à conjuntura atual, os trabalhadores egípcios ainda não estão satisfeitos e seguem na luta. Derrubar Mubarak foi o primeiro passo. Mas só o primeiro.

(agradecimento especial ao Fábio Bosco)
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Kadafi e a Europa: Sempre bons negócios

Por trás da pressão internacional para Kadafi deixar o poder na Líbia, um histórico de boas relações comerciais contradiz os governos dos Estados Unidos e da União Européia, que outrora"anistiaram" o ditador responsável por diversos ataques terroristas internacionais, incluindo uma bomba em um avião da PanAm que sobrevoava a Escócia. Vou colocar alguns dados que coletei em uma palestra e em pesquisas e suas interpretações, além de mostrar que o ditador tem muito a ver com logomarcas que todos nós conhecemos.
Muamar Kadafi tomou o poder na Líbia através de um golpe militar, pregando o fim do colonialismo italiano e exaltando o nacionalismo líbio. Tão logo virou chefe de Estado, expulsou da Líbia todos os italianos (segundo dados do "O Globo", mais de 20.000) e tomou suas propriedades. Mesmo assim, sua relação comercial com a Itália não foi abalada: em 1956, a ENI (gigante de energia italiana) começou a operar no país, e lá se mantém até hoje. Hoje, pelo menos 22% de todo o petróleo da Líbia e 10% do gás natural são fornecidos com exclusividade para a Itália. (fonte: Luiz Felipe Lampreia em "O Globo")
E não é foi só com o fornecimento de petróleo que a Europa se beneficiou do dinheiro de Kadafi: o ditador chegou a fazer um aporte na Fiat quando a empresa estava na iminência de quebrar, adquirindo 10% do capital acionário da montadora. Em plena crise mundial de 2008, o Banco Central da Líbia adquiriu 4% do UniCredit, o maior banco italiano e um dos maiores da Europa, salvando o banco que estava passando por uma situação problemática. Até no Juventus ele tem participação: 7,5% foram comprados pelo Fundo Soberano da Líbia, o que garantiu que seu filho treinasse e participasse de alguns jogos no time.
Estima-se que Kadafi tenha participação em 72 companhias em mais de 45 países (fonte: IstoÉ Dinheiro). No nosso país temos o banco ABC Brasil, filial do Arab Banking Corp, do qual ele é acionista, além de 1,2 bilhões de dólares investidos na Bahia em produção de alimentos, em parceria com a Odebrecht. Por toda a Europa, tem participações em petrolíferas, mineradoras, imóveis e até na mídia: é um dos investidores do Financial Times. Na Ásia, é dono de uma rede de hotéis e no Marrocos, de supermercados. Beneficiaram-se também do fundo líbio empresas como a Xerox, Shell, Siemens, Móbil, etc.
Não é de se espantar, portanto, que as armas da parcela fiel de seu exército (cerca de 5.000 de 400.000 homens) foram fornecidas por países Europeus e hoje são usada contra o povo. Mesmo com o congelamento de parte de suas reservas em outros países, Kadafi ainda conta com fundos depositados em Trípoli, que permitem-no financiar a guerra contra seus opositores. Depois de toda essa "lua de mel", os países que outrora beneficiaram-se do ditador, para aplacar o clamor público (e a possibilidade da revolução atingir outros países, tanto no Oriente Médio, como na própria Europa, onde há uma crise por conta das reformas previdenciárias), agora pedem sua saída.
Parte do povo líbio não aceita a intervenção militar internacional, e com razão. Que democracia aqueles que apoiaram a ditadura pretendem implantar no país? A continuidade da submissão, da extração de recursos, de desvio das riquezas e benefício da burguesia local? Derrubar o ditador significa acabar com a submissão, tanto ao governo quanto à exploração internacional, essa é a verdadeira luta do povo na Líbia. Isso sim é acabar com a ditadura. Caso contrário, chamar o novo regime de democracia será apenas uma diferenciação semântica.
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Re: Carnaval: Quem não tem panis, vai de circensis

Atenção: Este é um texto em resposta a postagem Carnaval: Quem não tem panis, vai de circensis. Caso não tenha lido, leia primeiro o original.

No princípio eu não iria criar uma postagem em resposta ao Carnaval, mas após ler percebi que minha opinião a respeito é muito parecida, podendo levar um pouco mais a fundo uma questão:

Acredito que hoje em dia o verdadeiro espírito do Carnaval é de que precisamos de um "tempo" para lidar e suprir os nossos sentimentos porque não conseguimos fazer isso nos outros dias.

E porque não? Não é falta de dinheiro, sexo e bebida, isso nos temos o ano todo, é o EXCESSO deles, nos temos tudo o que precisamos para suprir as necessidades básicas, mesmo para aqueles que não tem dinheiro, por isso precisamos de um dia para chegar ao auje da satisfação carnal, porque o excesso disso durante o ano nos torna insatisfeitos com o que temos. Poucas pessoas conseguem ser diferentes da maioria (que calculo em torno de 95% da população).

Não sou contra o carnaval, eu mesmo em alguns anos me entrego a esse espírito pois a vida de ninguém é perfeita, e a sensação de se entregar ao carnaval é inebriante o suficiente para passarmos o mês de fevereiro (antigamente o carnaval era em fevereiro), completamente sem dinheiro e felizes.

Quanto a Índia, pelo que eu conheço eles tem mais festivais do que nós, muitos deles 10 vezes mais coloridos do que o nosso carnaval, e pelo menos 1 pra cada mês do ano para cada divindade (ou seja, são muitos), mas em nenhuma dessas festas existe lascividade ou luxúria, creio que isso seja um princípio ocidental ou herança da Grécia.

O que você escreveu prova uma coisa, que o carnaval passa por mudanças radicais, mas tem sempre uma coisa em comum em qualquer época, é usado pela parte dominante da sociedade para apaziguar os dominados.
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Carnaval: Quem não tem panis, vai de circensis

Carnaval em Ouro Preto - Foto: TBD
O título dessa postagem não podia ser mais emblemático. Diz-se que as festanças de carnaval remontam à época grega, quando a sociedade "relaxava" seus ditames morais e entregava-se às festas, inclusive, liberando temporariamente os escravos
e cultuando à Baco da forma que melhor sabiam fazer (bebida, sexo e sacanagem). Não muito diferente do que se faz hoje. Já estive no carnaval de Ouro Preto, Rio de Janeiro e São Paulo e posso garantir que a festa assemelha-se muito ao que era feito na Grécia -- e, admito, já entreguei-me bastante a esse espírito.
Eu, em particular, não gosto de assistir desfiles de carros alegóricos tampouco me divirto, seja na arquibancada, seja pela televisão, vendo-os passar. É mais divertido para mim seguir um bloco ou participar do espírito orgiástico. Ontem, todavia, aconteceu algo interessante: estava em plena praça Benedito Calixto, com uma galera (até então) desconhecida, e fomos abordados por uma mulher (bêbada, é verdade) que veio para nos desejar "paz e perdão", agradecendo por nossa existência. Lindo. Mas diametralmente contrário ao espírito da festa.
Refleti a respeito. Ora, não precisaríamos de um período para "relaxar" nossos limites morais se fôssemos menos moralistas (ou hipócritas). Não seria necessário quatro dias ao ano para trazer à tona nossos desejos se lidássemos com eles -- e os supríssemos -- o tempo todo. Não seria necessário o carnaval para pedir perdão, para desejar paz, para tocar os outros e ser tocado fizéssemos isso o ano todo.
Isso tem um pouco a ver com o que escrevi há alguns dias atrás, as "Reflexões de um Depressivo". Foi um texto que me tocou, mesmo sendo meu. Tendo cada vez mais a pensar que é mais sensato ser sincero o tempo todo que reservar alguns dias para fazer isso durante o ano.
Não é só isso, todavia, que o carnaval tem em comum com seus primórdios. A sociedade nunca foi igualitária: alguns tem pão e, os que não tem, são manipulados para pensar que podem tê-lo. Assim foi em Roma: a sociedade miserável recebia migalhas e era agraciada com duelos de gladiadores para esquecer sua própria miséria. Panis et Circensis. Aos escravos gregos era facultado ter alguns dias de igualdade com seus senhores. À sociedade cristã (e católica) da antiguidade, oprimida pela moral religiosa que deixava-os "na linha" para não se revoltar contra seus reis (escolhidos por Deus) e contra o Papa (representante de Deus, tal qual disse Paulo) e pagar direitinho seus tributos através do dízimo, eram permitidos alguns dias para largar essa moral, precedidos por um período de "purificação" onde deveria se evitar a carne, o sexo e o álcool. Desconheço o paralelo disso no judaísmo e no islamismo, mas no bramanismo, religião extremamente opressora onde só os Brâmanes poderiam alcançar a iluminação e as castas inferiores deveriam submeter-se à eles, certamente devia existir um dia onde poderiam extravasar seus sentimentos de revolta travestidos do desejo de entregar-se aos prazeres da carne -- se não houvesse isso, o regime era ainda mais opressor do que eu imagino.
Isso me leva a pensar que, há muitos e muitos anos, o Carnaval é mais que o símbolo do prazer: é a evidência da opressão. Tudo o que é reprimido, seja os desejos, seja a miséria, converte-se em "desejos da carne" para que o povo se esqueça das necessidades da carne. Mais que isso, a mulher de ontem me ensinou, há ainda uma privação da expressão das necessidades do espírito, de se ligar uns aos outros e desfrutar da real existência humana. É claro que isso é extremamente perigoso para as classes dominantes: uma sociedade unida, tanto espiritualmente (e veja aqui que estou usando o sentido filosófico de espírito, diferente do conceito religioso), quanto políticamente, pode revoltar-se contra sua própria miséria. Por isso, estabelece-se alguns dias de Circensis: para que se esqueça do "Pão Nosso de Cada Dia" que falta na mesa.
Carros alegóricos desfilando na avenida preparados pelas comunidades que esperam ano a ano para terem seus 15 minutos de glória, enquanto passam os outros 364 dias (ou 365, se o ano for bissexto) esquecidos pelo governo. Cerveja liberada para que ninguém pense naquilo que está por vir pelo resto do ano. Sexo sem pudores para que se esqueçam que podem fazê-lo quando e como quiserem, sem que o Estado possa arbitrar sobre isso -- lembrando da proibição dos abortos, dos casamentos homossexuais, dentre outras proibições que não concernem ao Estado decidir.
Falta panis. Falta felicidade. Falta auto-realização (irônicamente, quem me convidou para ir ao bloco ontem foi uma amiga chamada Ananda, que em sânscrito quer dizer justamente isso). Falta liberdade de fato. Falta bem estar. Falta espaço para o amor.
Eu não quero 4 dias para me realizar de mentira. Quero 365 para ser feliz de fato. Isso só é possível se todos adquirirem consciência de que isso é possível. A pergunta que não cala é: se há mais de 2.000 anos o povo recebe essa dose de circo para se enganar, será que um dia será possível acabar com essa alienação?
Acredito, sim, que uma sociedade melhor é possível. Acredito na consciência. Acredito na existência humana plena, ainda que demore. Mas para que tudo isso aconteça, não sou só eu que deve acreditar nisso. "Sonho que se sonha só é só um sonho, [...] mas sonho que se sonha junto é realidade", disse o mestre Raul. Isso não é crença religiosa: é verdade. Se todos nos empregarmos a construir essa sociedade, ela vai existir, a despeito da opressão milenar.
Vou me dedicar a isso enquanto durar minha existência. Espero (e creio) que não seja o único. Que o carnaval não seja um baile de máscaras e que possamos viver sem elas o ano todo, ano após ano. Isso faz bem para o espírito, para a existência e para a sociedade. Vamos entender que tantos desejos reprimidos provém de alguém que os reprime e faz-nos acreditar que somos nós mesmos que o fazemos.
Vamos celebrar sim. O ano todo. A vida toda. Vamos fazer com que as próximas gerações possam celebrar como nós. Mas celebremos o que realmente é necessário e possível: a inexistência da opressão. Assim podemos exercer as nossas vontades. Assim, seremos senhores de nós mesmos, e deixaremos de ser uma panela de pressão. Sem pressão, sem ilusão, extravasar não será necessário: nossos necessidades serão supridas pelo exercício de nossos próprios desejos. E como diria Crowley, "todo homem e toda mulher é uma estrela", e como tal, nossas órbitas convergem, mas não devem se chocar. Tomemos isso como um ensinamento moral: é possível sim exercer nossa vontade sem barbárie. É possível construir uma sociedade melhor, desde que ela seja igualitária.
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É hora de começar! O oriente médio já começou.

A revolução continua no mundo árabe. Tunísia, Omã, Egito, Paquistão, Líbia, este último, objeto onde vou concentrar minhas atenções neste artigo. Veja que há uma característica peculiar neste país: como quase todos países africanos, a massa dividida em tribos e campesinos (com a diferença de que este tem o maior PIB de toda a África), e revoltou-se contra Muamar Kadafi, que está no poder desde 1977.
Amílcar Cabral, filósofo africano (sim, africano!) de Cabo Verde explica que existe uma diferença fundamental entre o regime colonial que vigorou (e vigora) na África e no resto do mundo: enquanto, mesmo querendo explorar os recursos locais, os colonizadores tentavam estruturar (ou permitiam a estruturação) de uma sociedade local nos outros países, a África foi uma região apenas de pilhagem, sem intenção de estímulo de infra-estrutura local. A consequência é que hoje a África em sua maioria continua sendo apenas fornecedora de recursos para os grande países do Imperialismo, que apoia suas ditaduras enquanto lhes é conveniente, e a população é cada vez mais miserável -- vide a Etiópia, onde são "famosas" as fotos de crianças raquíticas (fonte: meus colegas da Unifesp que traduziram um texto sobre a biografia deste filósofo).
Muammar Kadafi entrou no poder em 1944, supostamente, à partir de uma revolução, expulsando os italianos enfraquecidos pela 2º Guerra Mundial (ao bem na verdade, houve um acordo para que os colonizadores deixassem o país e colocassem o ditador no poder). Rompeu os acordos estabelecidos com o Imperialismo assumidos pela antiga monarquia passou a ser odiado pelos países europeus e americanos. Foi forçado a restabelecer as relações com esses países no final dos anos 90, quando percebeu-se que as reservas de petróleo do país não podiam ser simplesmente ignoradas (fonte). A burguesia local enriqueceu cada vez mais e o povo continuou dividido em tribos. Aí a ditadura passou a ser aceita pelos Estados Unidos.
A revolução, fruto do efeito cascata começado na vitoriosa Tunísia e na derrubada de Mubarak (veja, não há aqui o papel do Facebook), além das sanções que começaram a ser impostas pela Europa, estimularam o as tribos e setores do exército a ir às ruas para derrubar Kadafi. Seu regime ditatorial rege o país a ferro e fogo há 34 anos. O mundo ocidental começa a apoiar a revolução, inclusive, com movimentação do exército norte-americano. Não podemos ser ingênuos e pensar que isso é uma bondade espontânea desses países.

Retomando Amílcar Cabral, a África é um continente de pilhagem. A Líbia tem o que os Estados Unidos mais querem, uma enorme reserva de petróleo, e não querem perder essa boquinha. Cominam-se aí dois interesses: manter um de seus fornecedores e perpetuar seu imperialismo no ocidente. Imagine os efeitos desastrosos de todo o mundo que perceba que pode sim tomar os controles dos meios de produção, derrubando não só essas ditaduras mas os governos que se rendem ao controle americano "de forma democrática", através do controle da opinião pública e da consequente alienação que isso produz. É hora de se proteger usando sua arma mais forte: a própria opinião pública. Europa e EUA se reúnem para parecer que são os bons da história.
Não podemos defender nem Kadafi nem o apoio dos Estados Unidos. O poder é do povo, os benefícios devem ser para o povo, quem precisa governar é o próprio povo, não quem não os representa. É hora de ter a consciência de que a ditadura se estende não só aos regimes ditatoriais propriamente ditos, mas à pseudo-democracia que rege as atuais colônias imperialistas -- nas quais se inclui o Brasil, e assumir o controle daquilo que deveria ser nosso. É hora de ter um governo que nos represente de fato, no mundo todo, acabando com a concentração de renda e o enriquecimento da burguesia em detrimento dos trabalhadores.
É hora, mais que nunca, de ter consciência. O mundo árabe está nos ensinando que é possível sim acabar com a dominação de quem não defende seus próprios interesses. Se lá é possível, aqui também é possível. Temos de ser contrários tanto à ditadura quanto a uma democracia que não existe de fato. Temos que assumir o controle de nossas próprias vidas. E o primeiro passo para isso é deixar de acreditar nas mentiras e acreditar que temos sim a força para derrubar aqueles que nos exploram dia a dia, que distribuem esmolas aos pobres e exploram a massa trabalhadora. Com essa consciência e com união, podemos fazer um mundo melhor. Um mundo nosso. Um mundo onde "todos possam ser iguais" tal qual diz a letra morta da nossa Carta Magna, e os trabalhadores representem os próprios trabalhadores. É hora de começar! O orienta já começou.
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Revolução no Egito: O que temos a ver com isso?

Desde 25 de Janeiro desse ano, a população tomou as ruas do Egito para pedir a saída de Hosni Mubarak, que governa o país desde 1981. Em 1º de Fevereiro, mais de um milhão de pessoas tomaram as ruas para protestar. Mas afinal de contas, o que raios temos a ver com isso?
Quando a maioria das pessoas não gosta de discutir nem os nossos problemas "domésticos", imaginar que a política internacional tenha alguma importância é algo ainda mais distante. Do Egito então, só se ouve falar nas aulas de história antiga que nos faz imaginar que o país é habitado por múmias e faraós. É bem verdade que as múmias não habitam o país: o governo, ao contrário, está nas mãos sim quase de um faraó.
A diferença entre o "regime faraônico" que governa o Egito e a pseudo-democracia brasileira é superficial. Óbvio que entre a censura prévia e póstera, tanto da internet quanto de outros meios de comunicação, a primeira fica mais evidente. Também existe a farsa das eleições camuflando a ditadura da burguesia, contra um regime descaradamente ditatorial lá no país africano. A evidência de uma ditadura, todavia, não é o que determina sua existência.
Vejamos: hoje o PT tem o controle sobre a mídia (não só à partir dos canais e veículos governistas mas também dos empréstimos bilionários do BNDES, publicidade e lobby das empresas estatais sem as quais a mídia não teria como sobreviver, etc), sobre os sindicatos (que supostamente representam os trabalhadores mas na realidade estão alinhados com os interesses patronais), está no governo e controla grande parte da opinião pública atrelando seu sustento diretamente aos cofres públicos, sem gerar empregos, quer sejam duradouros ou de fato (nunca antes da história desse país houve tanta rotatividade nas contratações).
Essa ditadura velada é ainda pior que a egípcia. Enquanto os trabalhadores pensam que estão representados no governo e perpetuam os governantes no poder através do voto, banqueiros e grandes empresários enriquecem com as crescentes vantagens que lhes são oferecidas, tal qual a redução dos direitos trabalhistas históricos conquistados à base de suor e sangue, políticas que acabam com os pequenos empresários e agricultores obrigando-os a trabalhar para os grandes conglomerados e latifundios e uma massa faminta que topa trabalhar por qualquer salário para sobreviver, comprando o peixe de que esse é o milagre da geração de empregos -- até que três meses depois o desemprego bata à porta.
E que não pensem que aqui não haja morte nesse confronto por debaixo dos panos. Basta perguntar em qualquer favela para saber de algum trabalhador que foi morto pela polícia quando voltava para sua casa e foi acusado de tráfico de drogas -- enquanto os grandes traficantes não estão nem nos morros cariocas nem em Heliópolis, mas sim em Copacabana, Morumbi ou Brasília, lucrando tanto com as mortes de seus "soldados" do tráfico quanto com as decorrentes do vício. Pode-se também visitar o SUS para conhecer as filas que matam os doentes na espera por atendimento, latifundios à base de trabalho escravo, ou ainda a região serrana do Rio com um desastre iminente, previsível e ignorado pelo governo há anos.
Quanto à questão da repressão aos opositores, não imaginemos que isso não acontece por aqui: é óbvio que, entre um milhão de pessoas na rua e 10 mil manifestantes protestando contra o aumento abusivo da tarifa de ônibus em São Paulo (por exemplo), há uma diferença de proporções, todavia, da mesma forma que o exército partiu para porrada no Cairo, os militares desceram o cacete aqui em São Paulo.

A luta no Egito começou à partir da internet e tomou as ruas. Hoje, o Brasil é o 8º país com mais acessos à internet no mundo, e um dos quais o acesso cresce em ritmo mais rápido -- o mais rápido da américa latina. Problemas? Temos os mesmos: fome, falta de empregos, miséria, e outros inumeráveis... Está na hora de assumirmos essa luta e resolver aquilo que o governo não resolve e nunca irá fazê-lo por nós. O que o Egito tem a ver conosco? Tudo. Eles estão mostrando que lutar é possível, que trás resultados, e que quem manda na verdade é o povo. Podemos sim derrubar aqueles que não nos representam, acabar com a exploração e com a desigualdade: basta querer. O Egito quer.
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Rio: mais de 600 mortos. Nenhum culpado.

A região serrana do Rio já contabiliza mais de 600 mortos por conta da tragédia "causada pelas chuvas". O governo joga a culpa nas intempéries, e assim, o culpado é o céu, São Pedro, Deus, ou o que o valha. Ninguém que possa assumir a culpa.
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Enchente: muito além de um desastre natural

Geraldo Alckmin disse (de acordo com o UOL), que as obras contra as enchentes "não ficam prontas em 24 horas". Sabe, tenho total acordo com ele. Não podemos esperar do Estado que, em plena época das chuvas, construam piscinões ou o que o valha para combater as cheias.
O Estado já tinha que ter feito isso! Muito se fala das pessoas que "moram em área de risco", atribuindo-lhes a culpa de ser vítima dos desastres naturais -- uma vez que o Estado já tinha avisado que a área em questão não deveria ser habitada. Pois bem... Se a área é de risco e o Estado não vai investir em infraestrutura para combate às enchentes no local, para onde vai o dinheiro do IPTU e, sobretudo, dos impostos cobrados na conta d'água, em especial, aquele que deveria se destinar ao esgoto tratado? Mais que isso: como pode o Estado tributar uma "área de risco", se não legitimando a ocupação dessas áreas?
Desde que me conheço por gente -- até onde minha memória alcança, e olha que tenho 27 anos -- ouço falar do combate ao problema das enchentes do Rio Tietê. Até hoje, o problema perdura. Porra! Há 27 anos o governo ainda não conseguiu achar uma solução para isso (e olha que nos últimos anos uma pista "expressa" está sendo construída e, provavelmente, vai ser pedagiada)? E o dinheiro que foi destinado para isso, onde está? Sobretudo: como pode ainda ser despejado esgoto no Rio Tietê se há mais de 20 anos se constatou esse problema e os mesmos cidadãos (e indústrias) que despejam o esgoto pagam pela coleta de esgoto?
Na região metropolitana de São Paulo(incluindo as favelas), a taxa de esgoto corresponde a 100% da tarifa de água (ou seja, se você consumiu R$20 em água, vai pagar R$20 de esgoto) (fonte). Ora: 100% da água consumida numa residência vai para o esgoto? Não entrando no mérito da absorção dessa água pelo organismo humano, pela terra ou pelos animas de estimação, a tal tarifa para coleta é paga para que o rio colete?
Não me surpreende que os rios estejam transbordando. Deveriam transbordar dinheiro. Só que enquanto os rios enchem as casas dos pobres, o dinheiro dos pobres é drenado para ser reinvestido sabe-se lá onde (talvez no reajuste dos legisladores, que, nas palavras de Abelardo Camarinha, "não tem um padrão de vida de um cidadão comum") (fonte). E enquanto os deputados nadam no dinheiro, os cidadãos comuns se afogam nas enchentes.
E as bocas de lobo, que o cidadão comum (diz-se) tanto suja e paga para que sejam limpas? E nas estradas, que depois de serem construídas pelo Estado, passam a ser exploradas pela iniciativa privada, pode-se abster de pagar o pedágio quando elas desmoronam? 
Será mesmo que tudo isso é problema da natureza ou da desnatureza humana dos nossos governantes?

(Edit. (13/01): a tempo, "Mudanças climáticas não podem ser desculpas para enchentes", dizem especialistas)
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2010: Retrocessos ou avanços políticos?

O Brasil perdeu a copa. Ontem a retrospectiva da Globo começou à partir desse ponto, que aconteceu no meio do ano... 2010 começou no meio do ano?
É fato: o circensis está prevalecento sobre o panis. Não só falando da copa do mundo -- que muitosconsideram como uma das coisas mais relevantes do ano que se vai -- mas também teve o circo da eleição, o circo da invasão do Complexo do Alemão, e um circo até que interessante montado por Julian Assange: o Wikileaks, que não é mais "wiki", mas deixou muitos governos (sobretudo o dos EUA, contra o qual o ex-hacker parece estar travando uma batalha pessoal) constrangidos com os bastidores da diplomacia que supostamente eram para ser secretos.


Invasão do Complexo do Alemão

Quanto ao espetáculo da invasão do Complexo do Alemão, onde fizeram questão de que cada passo fosse acompanhado pela imprensa -- principalmente, o ultimato aos traficantes para que não houvesse confronto, mas, nas palavras do general José Carlos de Nardi, "se tiver confronto, infelizmente vamos ter partir pra isso" . Acabou que os traficantes fugiram por túneis ou pela mata, e foi feita uma operação abafa sobre os abusos da polícia na comunidade.
 É claro que toneladas de drogas e armas foram apreendidas. Mas isso não significa o fim do tráfico de drogas, e sim o desmantelamento do poder paralelo que governava a região (isso sim, um avanço) e continua tomando conta de várias outras no Rio de Janeiro, onde o Estado ainda não conseguiu tomar. Quem agora vai tomar o poder: as milícias, o Estado, ou o tráfico de novo? E falando sobre as milícias, já que esse é um problema "doméstico", a polícia do Rio de Janeiro nunca recebeu tantos louros, e é essa mesma polícia do Rio de Janeiro que cobra "seguro" de outras comunidades para "livrá-las do tráfico". Com ajuda do exército, marinha e aeronáutica, a polícia subiu o morro. Quem vai ajudar a tirar a polícia corrupta dos morros ocupados por eles?
E para botar fim nessa discussão e passar ao próximo ponto: por que é que só agora o governo federal resolveu ajudar? Teria a ver com as Olimpíadas, com a Copa, com uma pretensa cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU -- ou ainda com pretensões pessoais do presidente (quase ex) em algum cargo nas Nações Unidas?

Política Nacional

Dilma Rousseff foi eleita. Indicativo de continuidade do projeto do governo Lula: privatizações veladas, bolsa família ao invés de emprego que, aliás, tem seu "milagre" embasado em estatísticas que desconsideram a alta rotatividade e a perda de benefícios dos trabalhadores (ou flexibilização, como eles preferem chamar). De acordo com pesquisa da UnB desenvolvida pelo sociólogo Roberto Gonzalez, de cada dois empregos no Brasil, um dura menos de 2 anos. "40% dos trabalhadores com carteira assinada perdem o emprego todos os anos. A alta rotatividade comprovadamente influencia no valor dos salários, que são mais altos conforme maior o tempo no posto. Entretanto, apenas 25% dos trabalhadores conseguem permanecer no mesmo emprego por mais de cinco anos" (fonte). E falou-se ainda em volta da CPMF.
O salário mínimo foi reajustado em R$30. O dos senadores, deputados em mais de 65% e o do presidente em mais de 133,9% (em tempo récorde). Proporcionalmente, é o salário mais alto do mundo dentre os chefes de Estado. Acho desnecessário comentar algo sobre isso, pensando eu que a indignação é consenso geral dentre todos os trabalhadores.

Crise Mundial

E quanto à crise econômica, a "marolinha" de Lula, esse ano evidenciou que o "tsunami" ainda está longe de ter feito todos os estragos. Na Europa, 
"A série de estímulos fiscais e ajuda aos banqueiros e empresários cobram agora seu preço revelando os enormes rombos nos orçamentos públicos. A bola da vez deste final de ano é a Irlanda, que gastou o equivalente a 32% de seu PIB para salvar os bancos. A Grécia, por sua vez, reaparece com um rombo insanável. Em praticamente todos os países, os governos impõem brutais cortes fiscais, atingindo a Educação e praticamente todas as áreas sociais" (fonte).
Greves se espalharam pela Grécia, França, Espanha, Portugal e Itália. Na União Européia, algumas empresas não resistiram à concorrência -- reflexo da abertura do livre comércio e da crise -- e fecham as portas, enquanto outras vão para a China e para a Índia, gerando desemprego no ocidente e o aumento  dos empregos quase que em regime de escravidão no oriente.
Enquanto isso, a China ultrapassou o Japão e se tornou a segunda potência econômica mundial. Nos Estados Unidos, "os pacotes de estímulo à economia não surtiram efeito e [Obama] ainda perdeu a maioria democrata na Câmara dos Deputados [...]" (fonte).

É... De avanço concreto, penso eu, só se pode considerar o resgate dos mineiros do Chile e as ajudas humanitárias àquele país e ao Haiti após os desastres naturais. Todo outro avanço é relativo ou ainda não surtiu efeito -- portanto, não pode ser considerado avanço. E certamente esqueci de abordar outros retrocessos.
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Férias em meio ao turbilhão

Muito embora haja muita pauta quente para comentar -- a invasão do Complexo do Alemão, que levanta a questão do narcotráfico e, sobretudo, quem de fato lucra tanto com isso (e na minha opinião os traficantes são só intermediários em uma cadeia que envolve o governo, a burguesia -- ou os ricos, dê-se o nome que se
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Enem: a constatação da falência da educação no Brasil

Mais uma vez, o Ministério da Educação dá prova de sua incompetência ao gerir o que seria a prova que tem como objetivo "democratizar as oportunidades de acesso às vagas federais de ensino superior, possibilitar a mobilidade acadêmica e induzir a reestruturação dos currículos do ensino médio". Ano
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Por que não votar no Tiririca

Queria produzir um texto completamente desprovido de opinião. Acho que minha inspiração está se esvaindo dia-a-dia. Minha paciência também. Diz-se que "o filósofo não pode declinar da responsabilidade do homem que fala", algo assim, segundo Ponty. Foda-se! À partir do momento em que você começa a
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Das elocubrações às profecias


Vivemos em uma época interessante. Hoje, apresentados os fatos e pensando em tendências tiradas de fatos históricos (recentes ou não), fazemos análises. Outrora, faziam-se profecias. Profetas ou analistas, vira e mexe encontro textos datados de 2, 4, 8, 100, 800 ou 1000 anos atrás que parecem terem sido escritos hoje, levando em conta ou os fatos políticos que nos cercam, minha própria vida pessoal ou ainda a de outrém.
Corro o risco de repetir o que disse há pouco em alguns posts, mas preferindo citar outro autor,"mesmo que alguém afirmasse de algo: Olha, isto é novo! eis que já sucedeu em outros tempos muito antes de nós", ou ainda, dizer que há tempos, nada de novo se faz debaixo do sol. Para alguns dos leitores de Coélet no Eclesiastes, isso é profecia. Enfadonho ou não, é real, nada de novo sucede aquilo que nos antecedeu.
Mesmo no campo das paixões, de pathos, onde o ser humano parece às vezes provar que não é uma máquina lógica e matemática, às vezes me pego preso às mesmas elocubrações em que há anos estava. Minha memória pode ser falha, mas para isso servem os escritos. Lembrei-me ontem, por exemplo, de quando fui à casa dos Orixás e de lá escrevi (ou "des"crevi) aqui meu estado de espírito. Se tivesse escrito hoje, seria o mesmo. E nada de novo teria se passado embaixo do sol.
Os indianos chamariam isso de samsara, círculo. Falta-me conhecimento para dizer como os (filósofos?) ocidentais chegados à metafísica abordaram este problema, temendo eu que não tenham abordado, sem partir para a interpretação materialista. No oriente, existem diversas obras (?) dedicadas ao tema.
Tenho feito um experimento interessante nos últimos tempos e tentado me manter impassível diante de todas essas situações. Dosando paixão, mantendo a capacidade de análise e alerta todo o tempo. Estar impassível dentro de uma guerra, neste estado de espírito, significaria empunhar uma arma e lutar, e não sentar em cima da montanha e olhar os exércitos degladiarem-se. Significa identificar o curso do rio, seguí-lo, mas com conhecimento prévio de onde estarão as pedras ou as quedas d'água.

Na prática, procuro manter-me informado previamente sobre quaisquer armadilhas jurídicas conhecendo a jurisprudência -- afinal, não vivemos no mundo das idéias, vivemos no país da justiça que solta Daniel Dantas e queima o Protógenes --, já sei em quem vou votar e não acompanho as pesquisas, leio no jornal as coisas que me interessam -- a conjuntura internacional, economia, de vez em quando o caderno de cidades, e quando me sinto velho demais dou uma espiada no blog do Gravataí Merengue, que me dá esperança de que, quem sabe, as notícias do jornal de depois de amanhã podem ser diferentes -- logo que fecho a janela, a esperança se vai.
Enfim, mudam as pessoas, as construções, as tecnologias e continentes, mas continua fácil profetizar o futuro. Vai ser igual à hoje, continua igual a ontem. Se não existem três tempos (ontem, hoje e o "futuro"), então resta-me fazer no presente, conforme a profecia: 
"E, que o homem coma e beba, desfrutando do produto de todo o seu trabalho"
Comer, beber, trabalhar, lutar, principalmente para manter-se impassível. E todo o resto? É vaidade, e correr atrás do vento.

fonte: Eclesiastes (Bíblia de Jerusalém, Bíblia TEB)
 
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